terça-feira, 17 de maio de 2011

SLIHOT Eliezer Levin Afora a Luz bruxuleava ante a Arca da Torá, o local todo estava imerso em trevas




Quem não acredita em demônios, não sabe nada, dizia-me o velho Sender, contando-me esta estória que se passara na sua aldeia:
Era época de "Slihot" os dez dias que precedem o lom Kipur quando, seguindo o costume, depois da meia-noite, nos dirigíamos à Sinagoga para as pre­ces de purificação. Dada a hora tardia, o "shames" passava de casa em casa a ba­ter na porta para que ninguém perdesse os serviços.
Vivia na aldeia uma viúva, que mora­va sozinha; ela também, naquela noite, pretendia recitar os "slihot", e ficara acordada até tarde, à espera do "sha­mes". No entanto, atormentou-a o so­no, e acabou cochilando. No meio da noite, acordou com o ruído de uma forte pancada, e a voz grave do "shames" a repetir  o  pregão familiar:  "Erguei-vos, ó filhos, para o serviço do Criador". Sem perda de tempo, envolveu-se no xale e saiu. À frente da casa, deu com o vulto de um judeu, que lhe perguntou: "Va­mos à sinagoga?" A viúva, com muito medo de andar sozinha, acolheu de bom grado o convite. A aldeia estava adorme­cida, e em silêncio.  "Onde estarão os outros?         perguntou-se    a    mulher. Não terão ouvido o sinal do shames?". Como se lhe adivinhasse o pensamento, o homem retrucou: 'Todos já devem ter ido;   certamente   estamos   atrasados".
Ao chegarem, afora a luz que bruxu­leava ante a Arca da Torá, o local todo estava imerso em trevas. A viúva, aflita, subiu as escadas em direção ao balcão das mulheres.  Não havia ali viva alma. De novo ela se interrogou: "Onde esta­rão os outros? Teremos chegado cedo demais?". Lá de baixo, os olhos do ho­mem   a   acompanhavam   atentamente; eram negros como carvão e tinham um brilho de fogo. Ela se pôs a tremer. De repente,  os  braços do estranho se er­gueram e começaram a crescer; seus de­dos, longos e descarnados, já estavam a ponto de alcançá-la quando ela moveu os lábios   e   pronunciou:   "Shmá   Israel". Desprendendo-se do banco, precipitou-se para as escadas, e com desespero co­reu pela rua, até chegar em casa. Tran­cando a porta, murmurou ainda trému­la: "Agradeço-te, ó Deus, por me have­res   livrado   das   garras  do   demônio".
Nesse   instante, ouviu-se  o   relógio da aldeia bater a meia-noite. "Ai está", pensou a viuva "eu devia ter visto lo­go: era muito cedo para a ronda do shames".  Sentou-se e ficou aguardando o sinal. Passou-se mais algum tempo, e de novo, ecoou lá fora a voz grave do "sha­mes": "Erguei-vos, ó filhos, para o servi­ço do Criador". Desta vez, o escutara claramente. Envolveu-se no xale e saiu. Várias pessoas deixavam suas casas, es­fregando os olhos pesados de sono. Cau­telosamente, ela se juntou aos fiéis. Ao seu   lado,  envolto nas sombras, seguia um que levava, debaixo do braço, vo­lumoso  livro  de  rezas.  "Não se inco­moda     pediu  ela  se  formos jun­tos?" O judeu assentiu com ar piedoso, e,  enquanto caminhavam,  a viúva lhe foi contando tudo o que se passara com ela. Incrédulo, o homem exclamou:"De­mônio?!"   "Que  Deus  me castigue, se estiver    mentindo"        retrucou    ela. "E seus braços se elevavam tanto assim?"   mencionou  o  acompanhante,  e  er­gueu  o  seu  próprio  braço. Este come­çou a crescer, e a crescer, alongando-se cada vez mais. Ela quis gritar, mas não teve voz. Movendo os lábios, balbuciou: "Shmá Israel", e se pôs a correr, até chegar à Sinagoga, sã e salva. A Casa de Deus, a esta altura, estava apinhada de gente. A viúva meteu-se entre os fiéis, e finalmente recitou as preces das pe­nitências.
Esta estória, eu a ouvi da pró­pria mulher disse-me concluindo o ve­lho Sender.O que sucedeu a ela foi na verdade um aviso do céu, para que lavas­se os pecados. E você, meu amigo, quan­do é que o fará também? Olhe, os demônios andam soltos por ai'.

Adaptado de antigas estórias popular idish
Herança Judaica­ __ Revista trimestral da Editora B’nai B’rith, número 42__ JULHO DE 1980__ 5740

Pesquisado na Biblioteca Pe. Sabiá. Castro PR.

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