quinta-feira, 10 de novembro de 2011
A única certeza é a esperar e na espera acredito Naquele que me conduz através de sua Luz. Nele vejo as coisas mais simples em cada manhã. As coisas mais belas em cada entardecer. Em cada dia vejo como é bom ter esperança e esperar na luta de cada dia, dias melhores por vir. Não desanimar quando tudo parecer perdendo o sentido, mas animar-se com a criação Daquele que tudo fez por nós e continua a fazer sua criação a cada dia. Heleodoro Reis.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Edith Stein
Nova imagem de mulher
No grande público que tinha vindo para ouvir a doutora Edith Stein, filósofa e conferencista já muito apreciada, espalhou-se, por um momento, entre os que ainda não conheciam, uma certa perplexidade.
“A mulher deve estar ao lado do homem, não no lugar dele, e nem mesmo um degrau abaixo”.
Não se havia extinguido, de todo, o eco dos movimentos feministas que, no começo do século, tinha feito muito alarde.
A oradora não parecia nem um pouco revolucionária. Era uma mulher de estatura baixa, não muito bonita, mas de rosto de traços regulares, de um colorido delicado, iluminado pelo esplendor dos grandes olhos negros, cabelos espessos e escuros divididos ao meio e juntados num coque atrás da nuca, veste nobre, mas simples, antes, até modesta. Falava num tom de voz calmo, pacato, persuasivo, sem gestos nem ênfase. Parecia tão jovem que o promotor da manifestação sentiu-se no dever de, antes da conferência, prevenir o auditório para que não se admirasse com a juventude da oradora porque, na realidade, tinha muito mais do que os 20 anos que aparentava ter.
“Nem sequer um degrau abaixo do homem!”
Era preciso ter coragem para sustentar não somente isto, mas também que “todas as profissões especificamente masculinas podem ser desempenhadas pela mulher” e que “o seu acesso aos mais variados cargos diretivos, profissionais ou técnicos seria uma bênção para toda a vida tanto social como pública”.
Na Alemanha dos anos 30, quando as idéias nacional-socialistas se espalhavam como uma mancha de óleo, só se reconhecia um papel para mulher: o de ser mãe. Uma vez que o próprio Hitler tinha escrito e reafirmado que “cada filho que ela põe no mundo é uma batalha a se combater pela sobrevivência de seu povo”, disto brotava como conseqüência que a mulher que renunciasse a tornar-se esposa e mãe, devia ser considerada como marginal, ou pior, como “desertora”.
Foi, porém, a primeira a se admirar de ter sido chamada para expor os problemas da mulher moderna, uma vez que ela não era nem esposa nem mãe. Além disso, em 1922, aproximadamente dez anos antes, tinha escolhido, muito embora permanecendo leiga, uma vida claustral em Espira, hóspede das Irmãs dominicanas que dirigiam o Instituto Santa Madalena, onde ela ensinava língua e literatura alemã às alunas do segundo grau.
Os primeiros anos foram tranqüilos: repartia seu tempo livre dos deveres escolares, entre a oração, as obras de caridade e o estudo da filosofia de Santo Tomás. Mais tarde, será o próprio Santo Tomás a fazê-la compreender que “quando mais alguém é atraído por Deus, tanto mais deve sair de si”, o que queria dizer “volta ao mundo para levar-lhe a vida divina”. E, como ela mesma havia declarado, “foi obrigada a colocar seus talentos a serviço da verdade, portanto, de Deus, porque realmente, ele é “a Verdade”.
Assim, decidira-se a ouvir os convites que lhe vinham de todas as partes, e retomara seus estudos e suas publicações.
De resto, se, retirando-se para Espira, ela esquecera o mundo dos filósofos no qual tinha vivido até aquele fatídico 1922, os filósofos não a tinham esquecido.
Nem podia esquivar-se de seu valor como educadora. Tronaram-se sempre mais freqüentes os convites para fazer conferências sobre Filosofia, Pedagogia, Religião, bem como conferências especialmente sobre o tema “mulher”, sua educação, sua importância na vida dos povos.
Afinal de contas, como podia acreditar de estar afastada do mundo ela que pusera toda sua inteligência, seu saber e seu coração a serviço da educação de tantas jovens... e não apenas à vida no claustro. Sim, também para a vida no claustro, porque em Santa Madalena fora-lhe confiada, entre outras, a tarefa de preparar as jovens noviças e as professoras, profissionais, mães de família, foram confiadas à sua direção!
Manifestou sempre para com elas uma predileção especial. Escreveu a uma religiosa: “A coisa mais importante é que uma professora esteja repleta do espírito de Cristo, antes, que ela o encarne em sua própria pessoa. É preciso, porém, que ao mesmo tempo não esqueça a realidade da vida que espera as jovens quando deixam o colégio. De outra forma, existe o perigo de elas dizerem que as Irmãs não souberam enfrentar, e se apressem a deixar de lado, como um peso inútil, tudo aquilo que aprenderam no colégio... É preciso manter-se sempre atualizada. A geração jovem de hoje passou por muitas crises e não é mais capaz de nos compreender: Nós, porém, devemos procurar compreendê-la e fazer o possível para ajudá-la.
Eis porque se tinha particularmente interessado pelos problemas da mulher moderna, em vista de sua missão no mundo. Falou e escreveu sobre estes assuntos, com rara profundidade e competência. A mulher que a doutora Stein propunha como modelo a ser seguido era sempre Maria, “humilde, discreta, silenciosa, esquecida de si, transparente, afetuosa, atenta a escutar, no silêncio, a voz do Senhor e pronta para seguir sua vontade, em espírito de obediência.
Uma mulher sempre disponível em casa, na vida pública, no escritório, na fábrica, ou no claustro, para “ajudar, aconselhar, proteger, fazer crescer”. Tudo isto, porém, sem renunciar nunca, (e neste princípio ela era muito firme) aos seus direitos; sem constrangir a natureza no seu esforço de “comportar-se como um homem”. Muito pelo contrário, esforçando-se por valorizar todas aquelas faculdades próprias da natureza feminina, sem jamais sufocar, a própria individualidade; pelo contrário, reafirmando-a.
Desta forma, multiplicaram-se seus escritos como também os convites para fazer conferências, participar de congressos, falar na rádio, até março de 1931, quando “a atividade de oradora” diminuído, sem que ela se desse conta disso. Chegara, então, o momento que em que, com grande consternação das Irmãs e das alunas, Edith Stein deveria dar um comovente adeus ao Santa Madalena.
Tinha escrito a uma amiga que não poderia dedicar à Filosofia somente retalhos de tempo, subtraídos aos deveres do magistério, mas que deveria dedicar-se a ela totalmente! À espera de uma cadeira na universidade (por que a isto a aconselhavam quer seus superiores quer seu diretor espiritual, enquanto ela, indiferente ao sucesso, depois de ter-se colocado nas mãos de Deus, deixava-o decidir) durante quase um ano foi alternando a redação de textos filosóficos e pedagógicos com o recolhimento e a oração em institutos religiosos onde sempre fora uma hóspede muito agradável, mas aceitando também convites para fazer referências na Renânia, na Westfália, em Zurique e em outros lugares. E muitas conferências, tendo sempre presente a posição de Maria com relação à Igreja, costumava também pôr em foco, com firmeza, mas também com prudência, a necessidade de empenhar mais diretamente a mulher numa missão eclesial.
E nisto tinha-se antecipado de 30 anos aos princípios do Concílio Vaticano II.
Por fim, aceitou a livre docência no Instituto Superior Alemão de Pedagogia Científica de Munster.
domingo, 2 de outubro de 2011
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Herança Judaica.
FZEDAKAH MISHPATH
Aron Barth
Para explicar o papel de tzedakah e mishpath (traduzidos, em geral, pelos termos "caridade e/ou retidão" e "justiça") na "Weltanschauung" do judaísmo, devemos, antes de tudo, defini-los. Embora estreitamente relacionados, não são sinónimos. Além disso, desde que uns 1500 anos separaram a instrução dada por Deus a Abraão de fazer tzedakah e mishpath do último dos livros da Bíblia, que pre ga essa injunção, alguns matizes diferenciais na conotação das palavras devem, necessariamente, ter sido introduzidos. Só compreendendo as exigências é que podemos ir ao fundo delas.
"Cumpri o direito (mishpath) e fazei justiça (tzedakah), porque a minha salvação está prestes a vir, e a minha justiça prestes a manifestar-se" (Isaías, 56:1).
É possível dar definições gerais de mishpath. Requer três ações:
1) a revelação de fatos conforme o são objetivamente;
2) quais os capítulos, parágrafos e leis que se aplicam a esses fatos; e
3) a retirada de conclusões adequadas dos dois primeiros.
Parece que, se todo mundo praticasse a mishpath neste sentido, a sociedade não se estabeleceria, precisamente, numa base sólida. Os romanos, entretanto, desenvolveram a lei num grau notável; contudo, foram eles que cunharam o adágio summum jus summa injuria (o julgamento mais severo produz a mais dura injustiça). Tinham razão por dois motivos. O primeiro é que cada lei, mesmo a lei divina, deve estabelecer regras fixas, das quais dependem certas conclusões legais. Se nâb fosse assim, seria impossível ao indívfduo planejar sua vida, e a sociedade não poderia existir. Mas essas conclusões não cobrem as exigências de toda situação. Um roubo é um roubo, mas não se pode comparar um homem que rouba para se enriquecer com o que furta pão para alimentar seus filhos famintos. Durante a guerra, os homens forjam passaportes para escapar de uma situação difí-cil, e há os que forjam documentos para entrar nessa mesma situação. Um homem pode demolir uma casa para causar prejuízo ao seu proprietário e outro pode fazer a mesrna coisa para salvar vidas. A maioria dos proprietários de terras proíbe a estranhos ultrapassar os limites de sua propriedade. Mas o que dizer do homem que nega o direito de se caminhar pelo único caminho possível e que é o que fica próximo à sua casa? O direito de propriedade em geral é bem definido em lei, mas há os que obstinadamente se agarram às suas possessões, sem se importar com as necessidades de seus vizinhos. Portanto, segue-se que a justiça verdadeira não pode ser administrada sem a indagação dos detalhes de cada caso.
A segunda justificação desse adágio latino é a de que, às vezes, como acontece na lei criminal, quando um transgressor é punido, a lei não atinge efeti-vamente o verdadeiro culpado. Cada transgressão cometida devia nos impor a questão de saber se não foi o ambiente geral, ou condições particulares locais, que a causaram.
Alguns crimes são cometidos por perversidade. Outros, pelo erro do enquadramento social. Algumas reivindicações civis surgem de uma divergência de opinião sobre fatos ou leis; outras são devidas a uma sociedade doentia. Por isso, devíamos perguntar: Que é que deve ser feito para remover as causas da injustiça? A resposta é tzedakah.
Tzedakah difere de justiça no seguinte: ela se esforça em apartar a lei do caminho da injustiça, e se esforça em prevenir e remover as condições que dão causa à injustiça. Tzedakah é o que, em alemão, chamamos de ausgleichende Gerechtigkeít. Parece com igualdade, mas vai muito além. Chamemo-la justiça equilibrada, equidade.
Chegamos a essa compreensão da relação entre justiça e tzedakah, de três maneiras. Primeiro, filosoficamente. Quais são os nomes daqueles que administram a justiça e realizam a justiça equilibrada? Como se chamam aqueles que praticam tzedakah e mishpath? Aquele que, no mishpath, é chamado shofet, significando juiz.
Aquele que realiza tzedakah é chamado tzadik, significando justo, piedoso.
Em segundo lugar, o paralelismo em versos como "direito e justiça são os fundamentos de Teu trono; amor e verdade Te precedem. . ." A sintaxe desse versículo mostra que a tzedakah é paralela ao amor e que a justiça é paralela à verdade. (Compare-se também as palavras de Oséias: "Semeai para vós conforme o direito e ceifai de acordo com o amor".) Isto explica a tendência geral. Só pode haver uma verdade; seja agradável ou não, de bom paladar ou amargo, não pode ser alterada. Assim é com a justiça. Fatos são fatos; a lei é a lei. O amor, entretanto, é rico e variado. Ele vê o infeliz em seus apuros e procura assisti-lo. Mitiga feridas e não deixa machucar. E este deve ser o caminho do direito, da tzedakah.
Em terceiro lugar, a evolução da conotação da palavra tzedakah na história do nosso povo. Tzedakah tornou-se um conceito geral, paralelo ao que outras pessoas entendem por caridade e bem-estar social. Inclui o alívio de dificuldades e procura preveni-las. A implicação mais adequada de tzedakah está nas palavras de Isaías: "Fortalecei as mãos fracas e firmai os joelhos cambaleantes".
Estas três derivações juntas servem de base ao significado geral das palavras, embora haja versos estranhos nas Escrituras Sagradas, onde essas definições não deixam aparecer toda a significação de tzedakah e mishpath.
Neste ponto, mais extratos da Bíblia nos ajudarão a compreendê-los propriamente. Disse o Eterno: "Visto que Abraão certamente virá a ser uma grande e poderosa nação, serão benditas todas as nações da Terra. Porque eu o escolhi para que ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guardem o caminho do Senhor, e pratiquem tzedakah e mishpath (a justiça e o direito): para que o Senhor faça vir sobre Abraão o que tem falado a seu respeito" (Gênesis, 18 v. 18, 19). Foi prometido a Abraão que ele seria o patriarca de uma grande nação e uma bênção para o mundo, de modo que essa nação pudesse praticar o direito e a justiça. Esse fim é a condição para o cumprimento da promessa e o verso identifica "o caminho do Senhor", com direito e justiça. Por isto se pode dizer que se fosse a única referência na Bíblia ao direito e à justiça, teria sido suficiente para dar-nos uma compreensão de seu lugar na nossa "Weltanschauung". Mas a Torah ainda nos ordenou: "A justiça seguirás, somente a justiça, para que vivas, e possuas em herança a terra que te dá o Senhor teu Deus" (Deuteronômio, 16 v. 20). Também neste caso, este preceito serve de condição para a vida e a possessão da Terra Prometida. "Acaso teu pai não comeu e bebeu, e não exercitou a reti-dao e a justiça (tzedek e mishpath)? Por isso tudo lhe sucedeu bem. Julgou a causa do aflito e do necessitado; por isso tudo lhe ia bem. Porventura não é isso conhecer-me? diz o Senhor" (Jeremias, 22 v. 15, 16). Assim como acima encontramos uma identificação entre o direito e a justiça e "o caminho do Senhor", aqui encontramos os mesmos identificados com o conhecimento de Deus.
Esses dois preceitos são uma condição para a redenção: "Cumpri o direito (mishpath) e fazei justiça (tzedakah}, porque a Minha salvação está prestes a vir, e a Minha justiça prestes a manifestar-se" (Isaías, 56, v. 1) "Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que levantarei a David um Renovo justo; e, rei que é, reinará, e agirá sabiamente, e executará o direito (mishpath} e a justiça (tzedakah) na terra, Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro a sua moradia" (Jeremias, 23 v. 5, 6). "Sião será redimida pelo mishpath, e os que se ar rependem, pela tzedakah" (Isaías, 1, v. 27).
Por esta razão, pode-se dizer que o julgamento e a justiça são os caminhos do Senhor; é através deles que se pode conhecer Deus. E por causa disso que Deus escolheu Abraão e seus descendentes, são a condição para a posse da Terra Prometida; o abandono dos mesmos foi uma das causas do Exílio e o retorno a eles, uma condição para a redenção.
Se o leitor objetasse que tais exigências não são específicas do judafsrno e que são evidentes por si mesmas, deveríamos dizer que, infelizmente, para a Humanidade, ele não estaria certo. Todas as nações quebraram estas leis, inclusive a nossa. Mas os nossos chefes espirituais nunca deixaram de mostrar que a quebra era pecado. Mais de três mil anos depois de Deus ordenar esses preceitos, Estados totalitários agem pela máxima de que o bem do Estado precede qualquer exigência de direito e justiça. Numerosos outros Estados atuam nesse espúrio, embora não o admitam. Quantos governos pecam contra o primeiro conceito básico de direito e justiça, de que todos são iguais perante a leu Os legisladores distinguem as pessoas conforme raça, cor, religião e classe e assim o fazem o judiciário e a administração.
A menos que haja algum mal-entendï-do, não quero dizer que nosso povo, através da História, tenha sempre observado as leis da tzedakah e do mishpath, como deviam ter sido observados. Pelo contrário, os profetas de Israel não teriam certamente examinado este assunto em detalhe, se não fosse preciso acertar o errado. Mas a injuncao clara nos é imposta e sempre tivemos chefes que sabiam e nos ensinaram o que devia ser feito.
Aqui não cabe rever a Lei Judaica e mostrar como personifica os princípios da Justiça. Mas devemos citar alguns exemplos. A Torah proíbe a discriminação: "Não afligirás o forasteiro, nem o oprimirás; pois forasteiros fostes na terra do Egíto. A nenhuma viúva nem órfão afligireis" (Êxodo, C. 22 v, 21, 22); "Não perverterás o direito do estrangeiro e do órfão; nem tomarás em penhor a roupa da viúva" (Deuteronô-mio,-C. 24, v, 17); "Nem com o pobre serás parcial na sua demanda" (Êxodo, 23, v. 3); "Ná"o farás injustiça no juízo: nem favorecendo o pobre, nem comprazendo ao grande, com justiça julgarás ao teu próximo (Levítico, C, 19, v. 15); "Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei o opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa das viúvas" (Isaías, C, 1, v. 17); ". . . não defendem a causa, a causa dos órfãos, para que prospere; nem julgam o direito dos necessitados. Não castigaria eu estas coisas?, diz o Senhor" (Jeremias, C. 5, v. 28); "Não oprimais a viúva, nem o órfão, nem o estrangeiro, nem o pobre, nem intente cada um em seu coração o mal contra o próximo" (Zacarias, C. 7, v. 10); "A mesma lei e o mesmo rito haverá para vós outros e para o estrangeiro que mora convosco" (Números, C. 15, v. 16).
Esses versículos dão o princípio, mas a Torah entra também, em detalhes, como: "Não oprimirás o jornaleiro pobre e necessitado, seja ele teu irmão, ou estrangeiro, que está na tua terra e na tua cidade. No seu dia lhe darás o seu salário, antes do pôr-do-sol, porquanto é pobre e disso depende a sua vida; para que não clame contra ti ao Senhor, e haja em ti pecado" (Deuteronômio, C. 25 v. 15 e 15). E, paralelamente a isso, temos: "Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás: a paga do jornaleiro não ficará contigo até pela manhã" (Levítico, C. 19 v. 13). Daí se segue que "aquele que retém os salários de um operário alugado, age como se lhe tirasse a vida... e transgride quatro injunções e um mandamento" (Maimônides, "Leis do Emprego"). Em que Estado do mundo tem o trabalhador semelhante prote-çao? Sob a Lei Judaica não apenas ele pode recorrer por meio de ação civil, como qualquer infração aos seus direitos constitui séria ofensa criminal.
A maioria dos povos — possivelmente todos — é culpada de um crime muito sério. No decurso de suas investigações criminais, eles, por vezes, atormentam o acusado de modo a elucidar o caso por meio de confissões. O costume vem de tempos muito antigos até o dia de hoje. O "terceiro grau", inventado num país livre, prova que os tormentos não são o monopólio de regimes totalitários. A lei judaica é, talvez, a única que não caiu e não pode cair vítima disso. Embora o princípio seguido numa ação cível seja: "A admissão do litigante tem a força de cem testemunhas", no caso criminal o princípio é: "Homem algum pode incriminar-se a si mesmo". Nenhum valor, pois, se atribui à confissão do acusado e, assim, nenhuma tortura ou tormento podem ser aplicados no decorrer da investigação. De acordo com o meu professor, o falecido Rabino Zalman Ba-ruch, esse é um dos sinais da "dignidade pessoal" dada ao hornem, criado à Imagem de Deus. O homem não pode se incriminar, pois, de outra forma, ele renunciaria à dignidade à qual homem algum tem o direito de renunciar. Não é minha intenção discordar deste ponto--de-vista. Mas pode-se presumir que a Sabedoria Suprema também desejou, por essa lei, impedir a tortura do acusado. Há outra consequência importante. Todo homem a ser julgado deve ser considerado inocente até que sua culpa seja provada. Esse princípio é aceito por outras nações, mas não tem o valor real, a não ser que se admita que a confissão do acusado não é admissível como prova. A lei judaica também está muito mais adiantada do que os modernos sistemas legais, visto que não exige testemunhas para a afirmação da verdade de seu testemunho por juramento. A testemunha é examinada por instâncias e os juizes investigam; mas se se supõe que ela não diria a verdade sem um juramento, não a acreditariam nem mesmo com juramento. Por isto é que a lei judaica evita a leviandade com que se trata um juramento na maior parte dos países modernos. Não se pode deixar de protestar contra a forma vergonhosa de se administrar o juramento a testemunhas e a aceitação de afirmações juradas nos tribunais modernos. O sistema legal judaico fortifica o sentido de honra e responsabilidade da testemunha. Não se pode comparar uma testemunha, que sabe ser desde o início tratada com credencial e respeito, com a testemunha que, de começo, não é acreditada sená~o pelo juramento.
Vamos agora sair da parte do processo e nos voltarmos à lei civil. Nas transações comerciais é proibido o lucro além de determinada percentagem, a menos que o fato seja revelado e o comprador concorde com isso. Mas não é tudo. Outra proteção se exige em época de falta, quando um comprador pode ser forçado a concordar com qualquer preço. A Halachah, por esse motivo, manda que os tribunais fixem preços-teto para as utilidades vitais, quando haja necessidade. De acordo corn nossa definição, isto não é apenas matéria de lei, mas uma fusão de lei e caridade e/ou retidão, tzedakah, A Halachah se esforça por garantir que as utilidades vitais estejam sempre ao alcance e a preços aceitáveis a todos.
A tzedakah e a mishpath também se fundam, assim, nas Íeis relativas ao emprestador e ao que pede emprestado. É um preceito positivo emprestar ao pobre. Pode-se tomar o Êxodo C. 22 v, 25: "Se emprestares dinheiro ao Meu Povo, ao pobre que está contigo . . ." para aludir a uma ação voluntária, mas as Escrituras dizem: "Antes lhe abrirás de todo a tua mão e lhe emprestarás o que lhe falta, quanto baste para a sua necessidade" (Deute-ronômio, C. 15 v 8). Esta mitzvah é maior do que a de fazer caridade ao pobre que estende a mão, porque este já foi reduzido ao pauperismo, ao passo que o outro pode ser mantido por cima disso. E a Torah é muito severa com aquele que deixa de emprestar ao pobre. Com relação ao ano sabático, está escrito: "Acautela-te contra os maus pensamentos no coração, dizendo: 'O sétimo ano, ano da libertação, está à mão', e que teu olhar não seja mau para com teu irmão necessitado, e não lhe dês nada, e que ele clame ao Senhor contra ti, e haja pecado em ti".
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