Nova imagem de mulher
No grande público que tinha vindo para ouvir a doutora Edith Stein, filósofa e conferencista já muito apreciada, espalhou-se, por um momento, entre os que ainda não conheciam, uma certa perplexidade.
“A mulher deve estar ao lado do homem, não no lugar dele, e nem mesmo um degrau abaixo”.
Não se havia extinguido, de todo, o eco dos movimentos feministas que, no começo do século, tinha feito muito alarde.
A oradora não parecia nem um pouco revolucionária. Era uma mulher de estatura baixa, não muito bonita, mas de rosto de traços regulares, de um colorido delicado, iluminado pelo esplendor dos grandes olhos negros, cabelos espessos e escuros divididos ao meio e juntados num coque atrás da nuca, veste nobre, mas simples, antes, até modesta. Falava num tom de voz calmo, pacato, persuasivo, sem gestos nem ênfase. Parecia tão jovem que o promotor da manifestação sentiu-se no dever de, antes da conferência, prevenir o auditório para que não se admirasse com a juventude da oradora porque, na realidade, tinha muito mais do que os 20 anos que aparentava ter.
“Nem sequer um degrau abaixo do homem!”
Era preciso ter coragem para sustentar não somente isto, mas também que “todas as profissões especificamente masculinas podem ser desempenhadas pela mulher” e que “o seu acesso aos mais variados cargos diretivos, profissionais ou técnicos seria uma bênção para toda a vida tanto social como pública”.
Na Alemanha dos anos 30, quando as idéias nacional-socialistas se espalhavam como uma mancha de óleo, só se reconhecia um papel para mulher: o de ser mãe. Uma vez que o próprio Hitler tinha escrito e reafirmado que “cada filho que ela põe no mundo é uma batalha a se combater pela sobrevivência de seu povo”, disto brotava como conseqüência que a mulher que renunciasse a tornar-se esposa e mãe, devia ser considerada como marginal, ou pior, como “desertora”.
Foi, porém, a primeira a se admirar de ter sido chamada para expor os problemas da mulher moderna, uma vez que ela não era nem esposa nem mãe. Além disso, em 1922, aproximadamente dez anos antes, tinha escolhido, muito embora permanecendo leiga, uma vida claustral em Espira, hóspede das Irmãs dominicanas que dirigiam o Instituto Santa Madalena, onde ela ensinava língua e literatura alemã às alunas do segundo grau.
Os primeiros anos foram tranqüilos: repartia seu tempo livre dos deveres escolares, entre a oração, as obras de caridade e o estudo da filosofia de Santo Tomás. Mais tarde, será o próprio Santo Tomás a fazê-la compreender que “quando mais alguém é atraído por Deus, tanto mais deve sair de si”, o que queria dizer “volta ao mundo para levar-lhe a vida divina”. E, como ela mesma havia declarado, “foi obrigada a colocar seus talentos a serviço da verdade, portanto, de Deus, porque realmente, ele é “a Verdade”.
Assim, decidira-se a ouvir os convites que lhe vinham de todas as partes, e retomara seus estudos e suas publicações.
De resto, se, retirando-se para Espira, ela esquecera o mundo dos filósofos no qual tinha vivido até aquele fatídico 1922, os filósofos não a tinham esquecido.
Nem podia esquivar-se de seu valor como educadora. Tronaram-se sempre mais freqüentes os convites para fazer conferências sobre Filosofia, Pedagogia, Religião, bem como conferências especialmente sobre o tema “mulher”, sua educação, sua importância na vida dos povos.
Afinal de contas, como podia acreditar de estar afastada do mundo ela que pusera toda sua inteligência, seu saber e seu coração a serviço da educação de tantas jovens... e não apenas à vida no claustro. Sim, também para a vida no claustro, porque em Santa Madalena fora-lhe confiada, entre outras, a tarefa de preparar as jovens noviças e as professoras, profissionais, mães de família, foram confiadas à sua direção!
Manifestou sempre para com elas uma predileção especial. Escreveu a uma religiosa: “A coisa mais importante é que uma professora esteja repleta do espírito de Cristo, antes, que ela o encarne em sua própria pessoa. É preciso, porém, que ao mesmo tempo não esqueça a realidade da vida que espera as jovens quando deixam o colégio. De outra forma, existe o perigo de elas dizerem que as Irmãs não souberam enfrentar, e se apressem a deixar de lado, como um peso inútil, tudo aquilo que aprenderam no colégio... É preciso manter-se sempre atualizada. A geração jovem de hoje passou por muitas crises e não é mais capaz de nos compreender: Nós, porém, devemos procurar compreendê-la e fazer o possível para ajudá-la.
Eis porque se tinha particularmente interessado pelos problemas da mulher moderna, em vista de sua missão no mundo. Falou e escreveu sobre estes assuntos, com rara profundidade e competência. A mulher que a doutora Stein propunha como modelo a ser seguido era sempre Maria, “humilde, discreta, silenciosa, esquecida de si, transparente, afetuosa, atenta a escutar, no silêncio, a voz do Senhor e pronta para seguir sua vontade, em espírito de obediência.
Uma mulher sempre disponível em casa, na vida pública, no escritório, na fábrica, ou no claustro, para “ajudar, aconselhar, proteger, fazer crescer”. Tudo isto, porém, sem renunciar nunca, (e neste princípio ela era muito firme) aos seus direitos; sem constrangir a natureza no seu esforço de “comportar-se como um homem”. Muito pelo contrário, esforçando-se por valorizar todas aquelas faculdades próprias da natureza feminina, sem jamais sufocar, a própria individualidade; pelo contrário, reafirmando-a.
Desta forma, multiplicaram-se seus escritos como também os convites para fazer conferências, participar de congressos, falar na rádio, até março de 1931, quando “a atividade de oradora” diminuído, sem que ela se desse conta disso. Chegara, então, o momento que em que, com grande consternação das Irmãs e das alunas, Edith Stein deveria dar um comovente adeus ao Santa Madalena.
Tinha escrito a uma amiga que não poderia dedicar à Filosofia somente retalhos de tempo, subtraídos aos deveres do magistério, mas que deveria dedicar-se a ela totalmente! À espera de uma cadeira na universidade (por que a isto a aconselhavam quer seus superiores quer seu diretor espiritual, enquanto ela, indiferente ao sucesso, depois de ter-se colocado nas mãos de Deus, deixava-o decidir) durante quase um ano foi alternando a redação de textos filosóficos e pedagógicos com o recolhimento e a oração em institutos religiosos onde sempre fora uma hóspede muito agradável, mas aceitando também convites para fazer referências na Renânia, na Westfália, em Zurique e em outros lugares. E muitas conferências, tendo sempre presente a posição de Maria com relação à Igreja, costumava também pôr em foco, com firmeza, mas também com prudência, a necessidade de empenhar mais diretamente a mulher numa missão eclesial.
E nisto tinha-se antecipado de 30 anos aos princípios do Concílio Vaticano II.
Por fim, aceitou a livre docência no Instituto Superior Alemão de Pedagogia Científica de Munster.


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