— Quem não acredita em demônios, não sabe nada, dizia-me o velho Sender, contando-me esta estória que se passara na sua aldeia:
Era época de "Slihot" — os dez dias que precedem o lom Kipur — quando, seguindo o costume, depois da meia-noite, nos dirigíamos à Sinagoga para as preces de purificação. Dada a hora tardia, o "shames" passava de casa em casa a bater na porta para que ninguém perdesse os serviços.
Vivia na aldeia uma viúva, que morava sozinha; ela também, naquela noite, pretendia recitar os "slihot", e ficara acordada até tarde, à espera do "shames". No entanto, atormentou-a o sono, e acabou cochilando. No meio da noite, acordou com o ruído de uma forte pancada, e a voz grave do "shames" a repetir o pregão familiar: "Erguei-vos, ó filhos, para o serviço do Criador". Sem perda de tempo, envolveu-se no xale e saiu. À frente da casa, deu com o vulto de um judeu, que lhe perguntou: "Vamos à sinagoga?" A viúva, com muito medo de andar sozinha, acolheu de bom grado o convite. A aldeia estava adormecida, e em silêncio. "Onde estarão os outros? — perguntou-se a mulher. — Não terão ouvido o sinal do shames?". Como se lhe adivinhasse o pensamento, o homem retrucou: 'Todos já devem ter ido; certamente estamos atrasados".
Ao chegarem, afora a luz que bruxuleava ante a Arca da Torá, o local todo estava imerso em trevas. A viúva, aflita, subiu as escadas em direção ao balcão das mulheres. Não havia ali viva alma. De novo ela se interrogou: "Onde estarão os outros? Teremos chegado cedo demais?". Lá de baixo, os olhos do homem a acompanhavam atentamente; eram negros como carvão e tinham um brilho de fogo. Ela se pôs a tremer. De repente, os braços do estranho se ergueram e começaram a crescer; seus dedos, longos e descarnados, já estavam a ponto de alcançá-la quando ela moveu os lábios e pronunciou: "Shmá Israel". Desprendendo-se do banco, precipitou-se para as escadas, e com desespero coreu pela rua, até chegar em casa. Trancando a porta, murmurou ainda trémula: "Agradeço-te, ó Deus, por me haveres livrado das garras do demônio".
Nesse instante, ouviu-se o relógio da aldeia bater a meia-noite. "Ai está", — pensou a viuva — "eu devia ter visto logo: era muito cedo para a ronda do shames". Sentou-se e ficou aguardando o sinal. Passou-se mais algum tempo, e de novo, ecoou lá fora a voz grave do "shames": "Erguei-vos, ó filhos, para o serviço do Criador". Desta vez, o escutara claramente. Envolveu-se no xale e saiu. Várias pessoas deixavam suas casas, esfregando os olhos pesados de sono. Cautelosamente, ela se juntou aos fiéis. Ao seu lado, envolto nas sombras, seguia um que levava, debaixo do braço, volumoso livro de rezas. "Não se incomoda — pediu ela — se formos juntos?" O judeu assentiu com ar piedoso, e, enquanto caminhavam, a viúva lhe foi contando tudo o que se passara com ela. Incrédulo, o homem exclamou:"Demônio?!" "Que Deus me castigue, se estiver mentindo" — retrucou ela. "E seus braços se elevavam tanto assim?" — mencionou o acompanhante, e ergueu o seu próprio braço. Este começou a crescer, e a crescer, alongando-se cada vez mais. Ela quis gritar, mas não teve voz. Movendo os lábios, balbuciou: "Shmá Israel", e se pôs a correr, até chegar à Sinagoga, sã e salva. A Casa de Deus, a esta altura, estava apinhada de gente. A viúva meteu-se entre os fiéis, e finalmente recitou as preces das penitências.
— Esta estória, eu a ouvi da própria mulher — disse-me concluindo o velho Sender.—O que sucedeu a ela foi na verdade um aviso do céu, para que lavasse os pecados. E você, meu amigo, quando é que o fará também? Olhe, os demônios andam soltos por ai'.
Adaptado de antigas estórias popular idish
Herança Judaica __ Revista trimestral da Editora B’nai B’rith, número 42__ JULHO DE 1980__ 5740
Pesquisado na Biblioteca Pe. Sabiá. Castro PR.