O Noivado da Verdade.
Senhores!
Diante da instituição do paraninfado acadêmico inculca a idéia etimológica e festiva de um noivado. Nas idades antigas, como sabeis, e na moderna perdura o costume, paraninfo era aquele que entre harmonias e flores, acompanhava os noivos desde o teto paterno até ao lar nupcial.
Hoje, portanto, nesta sala da vida triunfante repleto, aqui paira um noivado místico e inefável! Noivos são os vossos espíritos moços, Senhores vencedores titulados mestres desde o presente momento. A noiva, que outra pode ser, senão aquela, de quem já cantava o Sábio das Escrituras: “A esta eu amei e requestei desde a minha mocidade, procurei tomá-la para mim por esposa, e me fiz amante da sua formosura?” Sabedoria 8,2.
Nesta hora, dizei-me em verdade, ó jovens, quem vos levou a deixardes a liberdade e as doçuras da casa materna pelos muralhões severos de um ginásio? Quem vos fez trocar os lampadários e as harmonias dos saraus alegres, por essa lâmpada solitária e muda das vigílias estudiosas? Por quem foi que preferistes ao fantasiar quimérico da adolescência, a meditação grave e metódica das ciências e letras? Por quem, senão pela Verdade, por essa Verdade, que vos falava nos lábios dos vossos mestres passados em sua vida, sorria-vos dentre as laudas dos livros e alvorecia nos horizontes das vossas lucubrações austeras?
Eu te saúdo, pois, ó noiva dos sábios! Verdade, que és mesmo Deus! Verdade, que és o Verbo eterno de Deus! Verdade, que nasceste da mente divina, no instante em que a nebulosa primitiva surgiu dançando vertiginosamente, a espadanar no espaço a miríada de mundos, que o povoam!
Salve, ó Verdade! Tu, cujo esplendor é Belo e cujo atrativo é o Bem; tu, que és a luz das inteligências e o encanto das vontades; tu, que no cérebro te chamas Ciência ou Crença, e no coração te nomeias Virtude!
Salve, ó Verdade! Salve, suspirada noiva de toda alma pensante! tu, a noiva de Platão e Aristóteles, de Cícero e Sêneca, de Aurélio Agostinho e Tomaz de Aquino, de Pascal e Gonçalves de Magalhães!
Saúdo, igualmente, a vós, Senhores que neste momento recebem seu título, a vós, que encerrais hoje gloriosamente a primeira fase do vosso noivado intelectual, a vós, que hoje ceifais as primícias da vossa constante fidelidade ao estudo, a vós, em cujas frontes juvenis desfolham-se hoje místicas flores de laranjeira, condignas e auspiciosas grinaldas do vosso amor à Verdade!
Texto extraído do Livro: Aquino, Dom F. de Corrêa. Discursos.2 Edição. Volume I. Imprensa Nacional- Rio de Janeiro-Brasil. 1944. (Arcebispo de Cuiabá da Academia Brasileira de Letras.
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