Estórias que despertam o amor
E há a estória daquela aldeia de pescadores, contada por alguém de nome João da Palhoça.
Aldeia onde os dias sucediam às noites e as noites sucediam os dias, naquela ciranda sem fim das mesmas coisas que se repetem, os mesmos rostos que se cruzam, sem nunca surpreender ou espantar, das mesmas, das mesmas coisas que são ditas e repetidas, e que, por serem sempre as mesmas, não são mais ouvidas, e dos mesmos gestos, desembocando tudo naquela monotonia e no enfado de um mundo esgotado, onde a vida acontece pela inércia porque o seu gosto bom há muito se perdeu nos corpos cansados de viver as mesmas coisas.
Até que algo estranho apareceu e desapareceu, nas ondas que subiam e desciam, algo inusitado, diferente, não visto antes e que fez com que as pessoas que nunca paravam, por já haverem visto tudo o que há para ser visto, parassem e se ajuntassem na praia, olhando e perguntando umas às outras: “O que será?”
E a coisa foi chegando, sem se apressar, até que finalmente chegou, para espanto de todo mundo.
Um homem morto. Desconhecido. Parece que havia viajado muito porque seu corpo sem vida estava coberto por algas e liquens, testemunha das solidões e dos mistérios pode onde havia passado.
Era necessário enterrá-lo. Que outra coisa se pode fazer com um cadáver?
Acontece, entretanto, que sem querer e sem saber, os homens e as mulheres começaram a fazer com aquele corpo inerte e o seu silêncio uma coisa de que nem eles mesmos suspeitavam... E as mulheres que o preparavam notavam seu porte enorme. E pensaram e falaram que ele teria sido gentil, fala mansa como a brisa, por vezes ousada como o quebrar das ondas... E pegaram suas mãos, e pensaram e falaram que ele deveria ter sabido amar como ninguém, e que deveria ter sabido dizer palavras que há séculos não eram pronunciadas naquela aldeia, e que ele deveria ter sabido fazer com que as mulheres buscassem uma flor para colocar nos cabelos... E os homens também pensaram e falaram sobre os lugares por onde aquele corpo deveria ter andado, e os gestos que teria feito, e o viram brincando com as crianças e segurando as mãos dos velhos nos momentos finais de sua velhice. Homem de bom coração. Pensando alto e longe voltam à aldeia, a contemplar aquele morto.
E foi assim que, enquanto as mãos faziam aquilo que se devia fazer para preparar um corpo para a morte, o pensamento e as palavras iam e vinham, tecendo por cima dele estórias a ser contada por muitas gerações. E não teria um que viesse a existir que não se emocionasse com a estória contada por um daqueles homens e mulheres da aldeia de pescadores.
E a teia que se tecia, um milagre ia acontecendo, porque, da fala sobre o morto, uma vida nova ia nascendo, e as pessoas olhavam para o passado, aquilo que havia sido, e imaginavam que poderia tudo ter sido diferente, se o afogado tivesse vivido entre eles. Com certeza ele teria plantado jardins, cultivado um campo, sido um grande pescador, sem medo de lançar para as águas mais profundas na busca de melhores e maiores peixes. E, de repente, a ciranda sem fim das mesmas coisas que se repetem se interrompeu por um morto que propôs uma nova dança. Dança esta que não haviam dançado antes e os olhos cansados de ver coisas diferentes, começou para o povo da aldeia a ser novamente uma ciranda, uma dança das mesmas coisas, dos mesmos olhares, indo perdendo sua importância nas mesmas coisas vistas.
E diz a estória que a aldeia nunca mais foi a mesma, em virtude do silêncio de um morto e das estórias que sobre ele se contaram até nossos dias. E quem não se envolveu ainda na fala-tece da estória, conte a sua ouvida por um ancião. Busque a fonte mais antiga de sua crença e sentirá envolvido nesta fala-tece sem fim.
Ir. Heleodoro. NDS. 2011. 13 DE ABRIL QUARTA FEIRA.

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